• Hudson de Pádua Lima

Você ainda está assistindo "Sua Vida"?


O texto de hoje talvez seja um pouco diferente dos demais, menos teórico, mais reflexivo e prático, porém, ainda dentro do contexto da psicologia analítica. Com o isolamento social, fomos obrigados a nos recolher dentro de nossas casas e esperar, aceitando resignadamente (ou nem tanto) este convite, não para a passividade, mas para a inação, quando nada mais poderia ser feito. Por mais que isso tenha sido assustador para a maioria das pessoas, o ser humano é um animal de hábitos e logo se acostumou, apesar das eventuais transgressões.

Essa dinâmica, esse movimento de isolamento e autocentramento, porém, não é exclusivo desse momento histórico. Quase todos nós já experimentamos em nossas vidas períodos de recolhimento, de humor deprimido, de introversão ou inatividade - é natural. Quando isso acontece, na psicologia junguiana dizemos que a energia psíquica está em regressão. Ao invés de fluir para fora, progressivamente, visando adaptar-se ao meio ambiente, ela volta-se para dentro, trazendo consigo nossa consciência e atenção para os processos psíquicos internos. São momentos de latência, apenas aparentemente inócuos, quando na verdade profundas revoluções preparam-se para emergir do inconsciente. É de estados como esses que surgem ideias para problemas que antes pareciam insolúveis, impulsos criativos que visam não apenas a adaptação da personalidade, como também sua expansão e crescimento enquanto meta em si mesmo.

O problema surge, porém, em duas situações: quando oferecemos resistência à esse movimento regressivo ou quando, uma vez tomados por ele, ficamos paralisados. O estado natural e saudável é uma alternância entre progressão e regressão da energia psíquica (também chamada de libido, sobretudo na psicanálise). É possível generalizar e dizer que na primeira metade da vida tendemos a funcionar mais progressivamente, ocupados com o desenvolvimento e adaptação ao ambiente externo, quando empregamos a maior parte dessa energia para a construção de uma persona funcional e atuante socialmente. Enquanto que, a partir da segunda metade da vida, começamos a ficar menos ativos fisicamente e mais introspectivos, a potência física do corpo decai e a energia psíquica fica mais disponível para a vida interna. Esse ponto chave de mudança, que ocorre na metade do ciclo vital e, às vezes, é vivenciado como uma crise de meia idade, é chamado de metanoia - processo no decorrer do qual, em última instância, estamos nos preparando para a nossa própria morte.

Quando resistimos à regressão ou nos entregamos passivamente ao estado a que ela nos leva, adoecemos. A depressão, a ansiedade e outras doenças psíquicas muitas vezes são manifestações mais exacerbadas desse fenômeno. E elas têm um porquê, ou, pelo menos, delas podem se extrair algum proveito ou aprendizado. A psique funciona através da compensação, o tempo inteiro contrabalanceando uma atitude ou movimento com o seu oposto equivalente, não apenas para manter-se estável, como também para permanecer em desenvolvimento. A movimentação alternada impulsiona a estados de equilíbrio transitório cada vez mais refinados e a cada ciclo o ego torna-se mais flexível, de modo que a tendência é sofrermos menos na próxima oscilação. Isso, apenas se de fato vivenciamos cada experiência conscientemente, ao invés de sermos simplesmente levados pela inércia e acabarmos numa repetição infindável de padrões inconscientes.

Por isso o título desse texto, "Você ainda está assistindo?". Você ainda está acordado e na condução da sua própria vida? Com quase dois anos de isolamento social, você extraiu algum proveito desse período? É claro que, só de passar por ele com os menores prejuízos possíveis já podemos dar-nos como satisfeitos, mas e depois que esse período passar, você terá se transformado, ainda que minimamente?

Mesmo que você não vivencie ativamente nenhum tipo de espiritualidade ou faça algum tipo de terapia, as oportunidades para reflexão e crescimento podem ser encontradas até mesmo de frente para a TV no sofá da sua casa, assistindo Netflix. De fato, a ideia para esse texto nasceu assim, depois que eu terminei uma série. E eu gostaria de convidar o leitor a atentar-se para essas possibilidades de desenvolvimento pessoal, que às vezes podem parecer muito dispendiosas, cansativas ou inacessíveis.

A maioria das narrativas em filmes e séries desenvolve algum tipo de variação da Jornada do Heroi, que é o modelo básico da individuação - processo de desenvolvimento do ego rumo à realização do Si Mesmo. A indústria midiática há muito tempo descobriu que seguir esse roteiro padrão é uma fórmula de sucesso, pois ele permite aos espectadores identificarem-se com o protagonista da história e assim envolverem-se com ela. Comece a notar que o seu interesse por certos gêneros cinematográficos correspondem à tônica pela qual você acredita vivenciar a sua própria vida ou, pelo contrário, compensam esta. Por exemplo, um advogado pode entusiasmar-se bastante com séries criminais, por fazerem parte de seu próprio universo ou pode, ao invés disso, interessar-se apenas por ficções fantásticas medievais, compensando a racionalidade e pragmatismo da vida consciente unilateral. Na prática, há nuances e complexidades.

Agora, comece a pensar no tipo de personagem com o qual geralmente você se identifica ou, inversamente, costuma ter total aversão. Aí estão indícios projetivos pertinentes à sua persona consciente ou à sua sombra, inconsciente. Projetamos nossos complexos o tempo inteiro no mundo a nossa volta, em pessoas reais e fictícias, é natural. É simplesmente o modo como funcionamos. E isso tem uma razão de ser e uma utilidade adaptativa. Nossa consciência funciona como um espelho, refletindo os estímulos internos ou externos. Figurativamente, um espelho não pode aperceber-se de si mesmo se não refletir um outro algo e, assim, por contraste, estabelecer a diferença e os limites entre o eu e o outro. Do mesmo modo, a partir da interação com o próximo é que experimentamos alteridade - o sentimento de ser um indivíduo.

A projeção está presente em todas as relações humanas e é responsável pelas paixões, ódios, conflitos e alianças. Tendemos a associarmo-nos com semelhantes na vida consciente, mas inconscientemente temos atrações irresistíveis pelos que nos são opostos. É possível aproximar-se desse oposto e junto à ele assimilar suas características complementares às nossas ou rechaçá-lo e negá-lo completamente, pois nos causam estranhamento e medo. Na prática, geralmente experiencia-se ambas as situações com uma mesma pessoa, de forma aparentemente contraditória. Jung e Freud, por exemplo, tiveram uma fantástica afinidade no começo de seu relacionamento intelectual. Freud considerava Jung como seu filho e sucessor e este via o primeiro de fato como um pai e mestre. Porém, por baixo das semelhanças conscientes, haviam profundas discordâncias inconscientes que se mostraram irreconciliáveis em sua história, levando-os à permanente separação. Jung não conseguia conviver com a autoridade e dogmatismo inflexíveis de Freud, enquanto que este não podia suportar a criatividade mirabolante e tendência ao relativismo de Jung. As sombras estavam projetadas um no outro e só bem mais idoso (vivenciando a metanoia) Jung fez as pazes com a sua sombra e a integrou (quanto ao Freud, não sei se conseguiu). Ele diz, em uma frase famosa oriunda de sua autobiografia: "minha vida é a história de um inconsciente que se realizou".

Voltemos à mídia e a jornada do herói. Assistir a um filme tendo essas ferramentas para reflexão torna o que poderia ser um prazer fútil em uma oportunidade de autoconhecimento. Aproprie-se dos mitos e histórias dos personagens, aprenda com eles o que há de útil e evite os erros desnecessários. Seres humanos são animais sofisticados, capazes de aprender não só por condicionamentos, mas também por observação e imitação. É por esse motivo que a Psicologia Analítica tem em alta estima as mitologias e contos de fadas de todos os povos, pois elas presentificam narrativas humanas universais: a batalha por sobrevivência do ego, a busca pela complementação na pessoa amada, a contenda entre mocinho e vilão, a aspiração ao poder, o anseio pelo encontro com o sagrado, o medo da morte e a ambição pela eternidade.

Contemporaneamente, mitologia e contos de fada saíram de moda e têm caído no esquecimento. É indiscutível que isso represente uma lastimável perda cultural, mas não implica necessariamente na danação irremediável do desenvolvimento psicológico humano. Estamos desenvolvendo mitologias novas, repaginando histórias antigas em roupagens modernas e redescobrindo motivos e imagens arquetípicas. Os arquétipos são imortais, apenas suas representações culturais é que sofrem mudanças.

Exemplo disso pode ser verificado na alquimia. A "química da Idade Média" era na realidade um conjunto de metáforas da jornada espiritual do homem projetadas na matéria. Transformar chumbo em ouro logo provou-se impossível fisicamente, é claro. Mas transmutar a mesquinharia e egoismo saturninos (relativo ao chumbo) em altruísmo e nobreza áureos era uma realidade psíquica. A busca pela imortalidade simbolizada na pedra filosofal é o equivalente da aspiração ao encontro com o transcendente, a realização da Grande Obra (a individuação, tornar-se quem de fato se é, essencialmente).

Atualmente temos esclarecimento científico, as metáforas alquímicas não funcionam muito bem mais. Mas identificar-se com Harry Potter ou com Frodo em suas jornadas heroicas continua sendo a realidade de muitos adolescentes (muitas vezes adultos, também, hehe) e é impossível não identificar o Super-Homem como um herói solar e Lex Luthor como um vilão saturnino, sua sombra. E não precisa ser um cinéfilo ou somelier de seriados cult para fazer esse exercício reflexivo. Até porque interesse intelectual muitas vezes não vem acompanhada de interesse emocional e é este que nos importa aqui. Os complexos inconscientes guiam nossos interesses. Seu gênero dramático, cinematográfico ou literário são os "certos" para você, você saberá se sentir-se tocado, em seu íntimo.

O chamado da essência é, assim, muito mais acessível e descomplicado do que se pensa. Basta uma atitude proativa, crítica, consciente do aprendiz e a vida encarrega-se de prover as lições. Entre tantos malefícios de nossa era consumista e predatória, um dos privilégios mal aproveitados que temos é a variedade de conteúdo midiático e a acessibilidade em que ele se apresenta. A massificação cultural e os efeitos prejudiciais da globalização continuam sendo uma realidade e um problema a ser confrontado, mas negar suas vantagens é demagogia.

E, a quem for acessível, a terapia continua e provavelmente continuará sendo um dos redutos mais preciosos onde se pode buscar as potencialidades pessoais e o desenvolvimento humano. Sua história é seu mito, nela, você é o herói e os contratempos do dia-a-dia são suas batalhas. Do ponto de vista de outra pessoa, você pode ser o vilão, a bruxa ou o sapo, não importa, se você despertar e olhar para si, descobrirá que em sua vida você é sempre o protagonista.


Hudson de Pádua Lima

Psicólogo

CRP 06/165910


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