• Hudson de Pádua Lima

Sombra na Psicologia: tudo aquilo que você empurra pra debaixo do tapete e deveria rever

Atualizado: Fev 28

Frequentemente termos e conceitos da Psicologia se popularizam e passam a fazer parte do vocabulário cotidiano e se tornam tão comuns que acabam perdendo seu significado original ou tendo este distorcido. É o caso, por exemplo, de palavras como complexo ("Fulano é complexado"), introvertido e extrovertido (usados basicamente como sinônimos de tímido e expansivo, respectivamente), ego (quase sempre se referindo ao aspecto negativo da individualidade exacerbada), libido (entendida geralmente como "tesão") entre outros, só para citar aqueles provenientes da Psicanálise e da Psicologia Junguiana. Outro destes termos que vêm caindo no gosto e conhecimento público é "Sombra", da qual falarei um pouco neste texto.

Na psicologia analítica, o corvo pode ser interpretado como um símbolo da Sombra. A imagem ilustra bem como a consciência (a figura humana luminosa) é apenas uma fração frente à vastidão inconsciente da sombra.

A Sombra é um conceito chave para a teoria junguiana do inconsciente coletivo e dos arquétipos. Segundo Jung, a sombra personifica, de modo geral, tudo o que o sujeito se recusa a reconhecer sobre si mesmo, constituindo o lado sombrio e desconhecido da personalidade. A sombra pode incluir tudo o que estiver fora do alcance da consciência e pode ser "positiva" ou "negativa". Como a pessoa tende a rejeitar ou ignorar os aspectos menos desejáveis de sua personalidade, a sombra costuma ser amplamente negativa. Existem, no entanto, aspectos construtivos que também podem permanecer ocultos na sombra de alguém. Vamos a alguns exemplos, que podem ser bem estereotipados, mas nos ajudam didaticamente.

Pensemos em uma freira, muito caridosa, subserviente, altruísta, benevolente e pacífica. O estilo de vida em convento é propício para que ela se identifique totalmente com a persona religiosa que construiu ao longo dos anos, de modo que esta é sentida como expressão genuína de quem ela é. Mas à medida que envelhece, torna-se uma madre superiora ranzinza, intolerante, severa e autoritária. É a sombra que naturalmente vêm à tona a partir da segunda metade da vida e que, se não reconhecida e acolhida, assume o controle da personalidade. No caso da freira, toda sua agressividade, egoísmo e tirania estiveram em sua sombra, ignoradas por toda a vida por serem incompatíveis com a persona religiosa. Claro que estas características poderiam ter tido outro destino, sendo "sublimadas" pela devoção sincera, ao invés de reprimidas, mas não é o que geralmente acontece.

De outra forma, por exemplo, um homem que cresce no campo, criado por um pai rígido, humilde e austero, aprende que deve ser esforçado, servil e modesto, além de continuar cuidando da propriedade quando o pai morrer. Pode ocorrer que toda sua ambição, criatividade e autonomia sejam relegadas à sombra, por serem incompatíveis com a persona de filho obediente. Características que são potencialmente construtivas e poderiam ajudá-lo a se desenvolver, mas que ele dificilmente acessará, projetando-as de forma negativa em pessoas como executivos, empreendedores, empresários e engenheiros, considerando-os soberbos, arrogantes ou prepotentes.

Jung afirma que todos carregamos uma sombra e quanto menos ela é incorporada à vida consciente do indivíduo, mais negra e densa ela é. Isto é, a sombra, por ser instintiva e irracional, é propensa à projeção, de tal maneira que uma inferioridade pessoal é reconhecida como uma deficiência moral percebida em outra pessoa. Essas projeções isolam e prejudicam o indivíduo, distorcendo sua visão de mundo e interferindo em suas relações interpessoais.

Abordando a questão por outro ângulo, podemos dizer que, do mesmo modo que o ego é o gestor da consciência e agente da personalidade, a sombra é a gestora do inconsciente pessoal do indivíduo. Ela começa a formar-se na primeira infância, quando nossos pais incentivam determinadas atitudes, comportamentos e interesses em detrimento de outros - ou seja, impondo um filtro educacional, social e cultural que é benéfico para nossa adaptação em sociedade, mas ao mesmo tempo nos limita e impede o desenvolvimento pleno de nossas potencialidades. Neste processo, criamos personas (máscaras, entendidas aqui como repertórios comportamentais relativamente autônomos e independentes entre si) que satisfazem as exigências do meio e com as quais tendemos a nos identificar como constituintes de quem somos. Pela natureza polar da psique, toda vez que afirmamos "eu sou isso", fica implícito a negativa correspondente "e por isso não sou aquilo". Tudo aquilo com o que não nos identificamos conscientemente vai para o inconsciente pessoal e se organiza em torno do complexo da sombra.

Do mesmo modo, a nível coletivo, sempre que um grupo se identifica com determinados valores, costumes e ideias, uma sombra coletiva é gerada, abarcando os valores, costumes e ideias excluídos da identidade grupal. A nível de humanidade, a sombra é também um arquétipo, representada em diversas culturas e mitologias como imagens arquetípicas de deuses e deusas obscuras, que carregam os conteúdos humanos gerais que a cultura é incapaz de assimilar à consciência coletiva. Temos, por exemplo, Kali na mitologia hindu, portadora de fortes impulsos destrutivos; Sehkmet na mitologia egípcia, senhora de uma fúria incontrolável; Morrigan na mitologia celta, sedenta por sangue nas batalhas; Ran na mitologia nórdica, manifestação da sedução e dos perigos fatais do oceano, entre outras.

Percebemos a sombra de uma pessoa se manifestando toda vez que ela reage desproporcionalmente à um determinado evento, geralmente de forma bastante emotiva (dizemos que ela agiu de forma complexada). Uma reação sombria (portanto, inconsciente) está presente sempre que há uma falta (uma pessoa de que negligencia sua aparência provavelmente tem uma sombra bastante vaidosa), excesso (um complexo de superioridade esconde uma sombra que se sente insignificante) ou engano, como no ato falho (como você chamar seu parceiro pelo nome do seu ex).

A maior parte do trabalho do paciente em psicoterapia é conscientizar-se da própria sombra e reconhecer as reações dela derivadas, as quais são muitas vezes prejudiciais para o convívio social e sentidas pelo indivíduo como limitantes, vergonhosas ou perigosas. Imagine, por exemplo, uma pessoa muito disciplinada e trabalhadora, mas que justamente por ser normalmente tão rigorosa permite-se beber indiscriminadamente em uma festa e acaba exposta à uma situação de abuso.

Na psicoterapia de orientação analítica (ou junguiana) em especial, o terapeuta busca lançar luz a esses aspectos sombrios da personalidade do paciente e mostrar possibilidades construtivas de expressá-las, integrando-as na consciência e proporcionando seu desenvolvimento. Por exemplo, um jovem com tendências agressivas, responsável por praticar bullying na escola, pode descobrir ser capaz de canalizar sua raiva na prática de algum esporte, como boxe, talvez, e encontrar muita satisfação nisso, participando inclusive de competições. Aliás, muitas vezes, já adultos, acabamos por descobrir que nossa criança interior, negligenciada e ferida, reside na sombra - esperando por reconciliação, afeto e atenção, pronta para retribuir com leveza, bom humor e criatividade.

Além do esporte e da psicoterapia, a arte e a espiritualidade também podem ser recursos valiosos na busca pela integração da sombra. Esse encontro, entre ego e sombra, é inevitável e ocorrerá mais cedo ou mais tarde, como parte natural do desenvolvimento psíquico humano. Além disso, é da natureza da sombra querer ser reconhecida e manifesta, pois se pensarmos na consciência como estando "acima" e o inconsciente "abaixo", verificamos existir uma tensão entre estes opostos. Em algum momento a tensão cede e o par troca de posições, movimento que é desejável, responsável pelas manifestações criativas da psique e indispensável para a manutenção da saúde mental. Também por isso muitas vezes sentimos uma irresistível atração pelo que é proibido ou censurável, vide por exemplo o sucesso das séries de TV sobre serial killers e a popularidade de muitos vilões da ficção.

Muito mais pode ser dito sobre esse tema, como a tendência que temos de escolher parceiros românticos que têm justamente as características de nossa própria sombra, como uma família quase sempre tem sua "ovelha negra", aquela pessoa que carrega a sombra familiar ou como a sombra pode aparecer em nossos sonhos... Mas deixo estes desdobramentos para outra ocasião ou também como incentivo para conversarmos e trocarmos ideias.


Hudson de Pádua Lima Psicólogo CRP 06/165910

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