• Hudson de Pádua Lima

Ser ou não ser (normal), eis a questão

X-Men, hoje uma franquia multiplaforma, é originalmente uma criação de Stan Lee e Jack Kirby para os quadrinhos, cuja estreia aconteceu nos EUA em 1936. Os X-Men são mutantes, humanos que nasceram com habilidades especiais em decorrência de uma mutação genética. Às vezes considerados o novo degrau da evolução humana, na maior parte do tempo são temidos e hostilizados pela humanidade, temerosa de seus poderes e das diferenças que não compreendem.

Cena do filme "X-Men 2" (2003). A pergunta carrega um duplo sentido proposital.

Os mutantes podem ser entendidos como uma metáfora para minorias sociais de todo tipo: políticas, étnicas, religiosas, sexuais, etc, mas também aludem à experiências e dificuldades humanas universalmente compartilhadas, como a busca por uma identidade, as atribulações na construção da personalidade e o anseio por ajustamento social.


Nesse contexto, trago um excerto de “A Prática da Psicoterapia” (1954/2011) de Carl Jung:

“Ser “normal” é a meta ideal para os fracassados e todos os que ainda se encontram abaixo do nível geral de ajustamento. Mas para as pessoas cuja capacidade é bem superior à do homem médio, pessoas que nunca tiveram dificuldade em alcançar sucessos e cujas realizações sempre foram mais do que satisfatórias, para estas, a ideia ou a obrigação moral de não ser mais do que normal, significa o próprio leito de Procusto, isto é, o tédio mortal, insuportável, um inferno estéril, sem esperança.”
Procusto era um bandido que vivia na serra de Elêusis. Em sua casa, ele tinha uma cama de ferro, que tinha seu exato tamanho, para a qual convidava todos os viajantes a se deitarem. Se os hóspedes fossem demasiados altos, ele amputava o excesso de comprimento para ajustá-los à cama, e os que tinham pequena estatura eram esticados até atingirem o comprimento suficiente. Uma vítima nunca se ajustava exatamente ao tamanho da cama porque Procusto, secretamente, tinha duas camas de tamanhos diferentes. (Grimal, P., 2004. Dicionário da Mitologia grega e romana.)

A Psicologia de Jung tem como pilar basal a ideia da individuação: todo indivíduo tem um desenvolvimento único pelo qual busca tornar-se cada vez mais si mesmo, sendo esta realização o principal objetivo de uma vida. Por isso, uma pessoa que almejasse apenas a normalidade, a tipicidade esperada para um ser humano médio de dada sociedade, estaria indo na contramão de um impulso psicológico intrínseco à sua natureza, que a levaria à neurose, o adoecimento mental.


Mas Jung não é tão radical. Ele entendia que a primeira metade da vida deve mesmo prestar-se ao desenvolvimento da personalidade exterior e ao ajustamento social, buscando integrar-se de forma saudável e atuante no coletivo, já que toda nossa vida civilizada é fundamentada na convivência e interdependência comunitária. O empreendimento particular na vida interior e no desabrochar das idiossincrasias da alma poderia esperar até a meia idade, quando esperar-se-ia que o indivíduo já estivesse estabilizado e pudesse voltar sua atenção para si e para dentro.


A nível prático é fácil perceber que a dedicação plena à individuação é um privilégio, do qual, infelizmente, nem todos podem gozar. A grande maioria da população ainda sofre com questões muito mais básicas decorrentes da desigualdade social e de problemas estruturais complexos resultado de toda uma história global de abusos, violências e desequilíbrios. Portanto, seria injusto esperar o mesmo desenvolvimento psicológico de todos os indivíduos e condenar aqueles que almejam o mínimo de uma vida suficientemente confortável e “normal”.


Em meu exemplo com os X-Men, é perguntado à Ororo Munroe, a Tempestade, se alguma vez na vida ela já desejou ser normal e ela responde negativamente, convicta. Apesar de sua infância difícil, órfã e criada como ladra, Ororo tinha descendência real, na África foi venerada como uma rainha e deusa e entre os X-Men é uma mutante de nível Ômega (o patamar mais alto de poder), muitas vezes assumindo a liderança da equipe. Essa trajetória lhe tornou possível consolidar um forte senso de identidade e propósito, justificando sua convicção em nunca ter desejado ser normal. Mas, se a mesma pergunta fosse feita a um dos Morlocks (os mutantes estigmatizados por suas mutações físicas, excluídos tanto da comunidade humana quanto da mutante devido a sua aparência), provavelmente muitos deles diriam que o seu maior sonho seria a normalidade. Mesmo a Vampira, com uma aparência comum e acolhida entre os X-Men, muitas vezes desejou não ter seus poderes, pois estes a impedem de ter qualquer contato físico e a condenam a um isolamento social forçado.


Trazendo a questão de volta à nossa realidade, podemos chegar a algumas conclusões. Primeiro, a normalidade está sempre condicionada a algum pressuposto arbitrário, geralmente estatístico, daquilo que é comum e esperado num dado contexto. Portanto, não existe um conceito universal do que é ou não normal, apenas a observação do que é típico (o que, por si só, não é garantia nenhuma de excelência e muitas vezes está longe de ser o ideal). Segundo, infelizmente, a individuação não é para todos. A psicoterapia deve ser sim cada vez mais difundida e acessível, mas os propósitos à que se prestará devem se ajustar à realidade de cada grupo ou indivíduo. Muitas vezes a pessoa adoecida precisa apenas de acolhimento, de escuta, compreensão e até mesmo algum direcionamento (indo contra a várias escolas de pensamento clínico que defendem uma absoluta neutralidade e imparcialidade do terapeuta) para que encontre uma vida minimamente digna, direito humano universal e inalienável.


Por último, encerro com dois ensinamentos de Jung: “O sapato que se ajusta a um homem aperta o outro; não há nada para a vida que funcione em todos os casos. Cada um de nós carrega sua própria forma de vida - uma forma indeterminável que não pode ser substituída por nenhuma outra.” (Modern Man in Search of a Soul, 1933/2014) e por isso mesmo, há de se ter parcimônia ao julgar o outro, pois “todo julgamento de um homem é limitado pelo seu tipo de personalidade e que toda maneira de ver é relativa.” (Memórias, Sonhos e Reflexões, 1961/2016). Hudson de Pádua Lima

Psicólogo

CRP 06/165910

Bibliografia

Jung, C. G. (2016). Memórias, sonhos, reflexões. Nova Fronteira. Jung, C. G. (2014). Modern man in search of a soul. Routledge. Jung, C. G. (2011). A prática da psicoterapia. Editora Vozes Limitada.



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