• Hudson de Pádua Lima

O que é e como funciona psicoterapia na abordagem junguiana

Atualizado: Fev 28

Olá, caro(a) leitor(a). No meu primeiro texto, eu abordei algumas questões que considero essenciais para esclarecer alguns pontos sobre psicoterapia para quem nunca fez esse acompanhamento antes e não sabe bem como buscar ou o que esperar. Lá eu falei um pouquinho sobre as diferenças entre psicólogos, incluindo a questão das abordagens teóricas. Dando prosseguimento a essa série de textos introdutórios, neste artigo eu venho explicar um pouco mais sobre esse assunto, tratando especialmente da abordagem que adotei em minha prática clínica, que é a psicologia analítica ou junguiana.

A Psicologia é uma ciência que estuda o comportamento humano e processos mentais, tanto a nível individual quanto grupal - sob diversos aspectos (biológico, social, cultural, emocional, etc.). Ao longo do seu desenvolvimento, diversos estudiosos propuseram teorias para pesquisar e explicar esses fenômenos. Na área clínica, em particular, que é o campo psicológico destinado a tratar das psicopatologias e saúde mental, essas diversas teorias são conhecidas como abordagens ou referenciais teóricos.

Trata-se de maneiras diferentes de se olhar para os mesmos eventos psicológicos, a partir de perspectivas particulares. São lentes que o profissional usa para enxergar o mundo e o ser humano, a partir das quais consegue fazer uma leitura dos acontecimentos, propor hipóteses explicativas para eles, testá-los e prever suas próximas ocorrências, e, no caso de transtornos mentais ou sofrimento psíquico, oferecer diagnósticos e tratamentos. Dentre esses referenciais teóricos, pode-se citar a psicanálise, a análise do comportamento, a terapia cognitivo-comportamental, a fenomenologia existencial, a Gestalt, o construcionismo social, a psicologia analítica, entre muitas outras.

Assim, por exemplo, pode-se dizer (de modo bem superficial e genérico) que para a psicanálise, nossos comportamentos e personalidade são manifestações da mente consciente e inconsciente; para a terapia cognitivo comportamental, são as nossas crenças centrais que influenciam nossos modos de agir, sentir e pensar; para a análise do comportamento, são as circunstâncias ambientais e a história de vida do indivíduo que melhor explicam sua natureza. E assim por diante, cada teoria se aproximando dos fenômenos humanos por uma frente específica.

A psicologia analítica, também conhecida como psicologia junguiana, psicologia complexa ou psicologia profunda, é a abordagem psicológica baseada na filosofia e nas ideias do psiquiatra suíço Carl Gustav Jung (1875-1961). Discípulo direto de Freud, Jung desenvolveu sua própria teoria partindo de uma base psicanalítica freudiana, da qual o pressuposto mais importante é a existência do inconsciente. A consciência seria apenas uma fração superficial da psique, sendo que a sua maior parte consistiria de conteúdos inconscientes: memórias, pensamentos, sentimentos e sensações descartados ou reprimidos pela consciência, por serem moralmente reprováveis para o indivíduo, por provocarem sofrimento psíquico ou simplesmente por não terem utilidade prática, sendo esquecidos. Mas que ao serem acessados em terapia podem trazer compreensão, alívio e ressignificação.

Jung foi além e propôs também a existência de um inconsciente coletivo. Baseado em suas observações clínicas, pesquisas e viagens pelo mundo, o psiquiatra observou que haviam muitas semelhanças entre as experiências humanas básicas, qualquer que fosse o povo, a cultura ou a área do globo em que estivessem. Temas recorrentes que apareciam em sonhos, mitos e artes e que expressavam típicas experiências humanas, como nascimento, maternidade, paternidade, paixão, envelhecimento, morte, reencarnação, etc. O sonho está para o inconsciente pessoal, assim como o mito está para o inconsciente coletivo. Do mesmo modo como herdamos uma série de características físicas de nossos ancestrais mais remotos, também herdaríamos esses componentes psicológicos que nos colocam predispostos a repetir os mesmos tipos de experiência, tornando-nos aptos a sobreviver em ambiente social. Seria, por assim dizer, o a contraparte psicológica da teoria da evolução das espécies proposta por Darwin na Biologia.

Assim, na psicologia junguiana, consciente, inconsciente pessoal e inconsciente coletivo formam o tripé fundamental da "estrutura" da psique humana. O ego é compreendido como o agente da consciência, responsável por receber as informações advindas das experiências e organizá-las de uma forma coesa e adaptativa, permitindo-nos uma percepção suficientemente contínua de si mesmo (personalidade) e do mundo (experiência temporal). Porém, esse funcionamento pode e muitas vezes falha, por ser incapaz de processar a totalidade das vivências individuais. Muitas dessas informações são então relegadas ao inconsciente, que funciona como uma espécie de depósito, e que depois podem ressurgir, por exemplo, na forma de sonhos, fantasias e devaneios. Porém, se esses conteúdos não encontram formas ou vias de expressão (como a arte), eles podem se manifestar como sintomas na vida da pessoa que acarretam sofrimento, tais como insônia, estados deprimidos, ansiedade, angústia, impotência, ganho ou perda súbita de peso, bruxismo (ranger os dentes enquanto dorme), entre outros. Os sintomas são tentativas de comunicação do inconsciente, que tem por natureza querer ser reconhecido pela consciência e não se expressar de forma verbal, recorrendo à imagens, sensações e sentimentos.

Além disso, outra função do inconsciente é fornecer matéria prima e energia para o desenvolvimento pessoal, à medida em que a pessoa envelhece. Daí vem as características construtivas do inconsciente, que atua como um promotor de criatividade, permitindo-nos crescer, criar, reinventar e encontrar respostas e significados para as questões da vida, sobretudo aquelas que escapam à lógica, como o propósito de nossa existência, o sentido da morte e o contato com o sagrado.

A tarefa da terapia é então propiciar uma escuta ao inconsciente, o qual é geralmente silenciado ou negado pelas tarefas cotidianas e pelo modo racional e pragmático com que levamos nossas vidas na contemporaneidade. Como não é possível ter acesso direto ao inconsciente, uma vez que ele não se expressa exatamente com palavras, o terapeuta incentiva o paciente a falar sobre o que desejar, permanecendo atento às conexões entre os assuntos, as associações entre os temas, suas interpretações e percepções, aos seus atos falhos (como quando você confunde o nome de duas pessoas ou troca duas palavras com sons semelhantes, mas significados diferentes), fantasias e emoções. Todos são indicativos do que se passa na atmosfera interior do inconsciente e que disfarçada e naturalmente emergem no discurso e na expressão afetiva do paciente. O papel do terapeuta é identificar esses conteúdos e apresentá-los à consciência, num processo colaborativo com o paciente, procurando refletir juntos sobre as questões que surgem desse movimento, buscando sentidos, adotando novos pontos de vista, propondo maneiras alternativas de lidar com dificuldades ou limitações e (re)descobrindo recursos criativos para uma melhor qualidade de vida, auto expressão e desenvolvimento pessoal.

Na prática, além da conversa terapêutica, o psicólogo pode também pedir ao paciente que relate seus sonhos, importante via de comunicação inconsciente; propor exercícios imaginativos; conduzir atividades expressivas a partir de desenhos, pinturas, modelagem, escrita, música, entre outros. O paciente pode produzir esse material durante a sessão ou trazer de casa, assim como também pode levar quaisquer coisas que queira compartilhar com o terapeuta, como fotos, jogos, vídeos, etc., considerando que o espaço da terapia é do paciente e ele pode usá-lo como preferir (dentro, é claro, de um enquadre profissional e dos limites da dupla). Tudo isso pode ser aproveitado como material de trabalho e ponto de partida para conversas, lembranças e reflexões.

Não existe um tempo preestabelecido para a duração do tratamento, sendo que o processo psicoterapêutico continua enquanto o paciente sentir que tem aproveitamento ou quando tiver conseguido alcançar aquilo que buscava no início da terapia.

Este é um esquema geral e básico de como funciona uma psicoterapia em abordagem junguiana. Lembrando, entretanto, que existem muitos desdobramentos e possibilidades quase infinitas na prática clínica, principalmente dentro do referencial analítico. Jung nunca pretendeu formar uma escola de pensamento rígida com fiéis seguidores. Ele valorizava muito a experiência subjetiva e a expressão individual, postura que sustentava e incentivava também dentro do consultório, para os terapeutas. Assim, um psicoterapeuta junguiano nunca é igual a outro, levando sempre para a clínica as teorias psicológicas, como também sua personalidade, sua história de vida, suas afinidades e seu estilo pessoal.

E aí, ficou alguma dúvida ou questão que gostaria de ver mais detalhada aqui? Comente aqui embaixo. Pra quem quiser saber mais sobre o assunto, mas ainda de forma introdutória, deixo um artigo da revista Super Interessante como leitura adicional aqui. Até a próxima.


Hudson de Pádua Lima Psicólogo 06/165910

São Carlos - SP

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