• Hudson de Pádua Lima

O Ego não é o vilão que se pinta por aí

No senso comum, a palavra "ego" acabou adquirindo conotações bem negativas e o próprio conceito em si teve seu significado alterado para muito além do que originalmente designava em psicanálise e na Psicologia Analítica. É geralmente associado a prepotência, arrogância, mesquinharia, egoísmo, narcisismo e outras características com as quais ninguém gosta de ser associado. Neste texto, vou falar um pouco sobre como o ego é compreendido na teoria junguiana e mostrar que, longe de ser o vilão, o ego nos é absolutamente necessário, muito embora um ego inflacionado ou fragilizado possa significar problemas.

"Ter o rei na barriga", expressão popular que se refere a uma pessoa que tem o ego inflado.

Para Jung, o Ego é um complexo (confira aqui meu outro texto a respeito disso), um núcleo energético em torno do qual gravitam todos os conteúdos psíquicos relacionados a identidade individual. Conceitos a respeito de si mesmo, memórias autobiográficas, imagem corporal, autoestima, autoimagem, afetos, sentimentos e pensamentos autocentrados, crenças sobre si e suas capacidades e limitações, tudo isso faz parte da estrutura egoica, a qual ocupa lugar central na consciência. De fato, o Ego é diretamente responsável pela consciência dos eventos e estímulos dos mundos interno e externo, à medida em que só se pode ter consciência de algo se esse algo estabelece alguma relação com o Eu. Isto é, a constatação da existência de um objeto só é possível a partir da perspectiva de um sujeito.

Assim sendo, o (complexo do) Ego tem como função principal agenciar a consciência individual. Ele é o gestor desta, selecionando no ambiente determinados estímulos em detrimento de outros, buscando sempre adaptar-se e sobreviver. Nesse processo, o Ego vai formando e revestindo-se de estruturas auxiliares chamadas "personas". São como máscaras ou vestimentas psíquicas, formadas a partir das exigências sociais e culturais às quais o individuo é exposto. Por exemplo, o nome próprio de uma pessoa refere-se, quase sempre, à sua principal persona, aquela pelo qual é reconhecida e tratada enquanto sujeito biopsicossocial.

À medida em que se desenvolve, o sujeito passa a interagir em diferentes meios sociais além do da família, como a escola, a vizinhança, a instituição religiosa, o ambiente de trabalho, entre outros. Cada um desses pressupõe uma atitude particular, um modo de portar-se e agir que propicia reconhecimento e acolhimento dentro do grupo, do qual o indivíduo não pode distanciar-se muito quiser (ou precisar) permanecer nele. Dessa maneira, para cada grupo têm-se uma persona distinta que, na prática, é performada como uma espécie de subpersonalidade. Isso é facilmente identificável na vida de qualquer pessoa: um homem pode ser filho, pai, médico, professor e marido, por exemplo. Note, entretanto, que existe apenas certa margem de escolha entre as diversas personas disponíveis em determinado momento sócio-histórico-cultural. Enquanto algumas personas são marginalizadas e ostracizadas (basicamente, qualquer grupo minoritário dentro de uma sociedade "tradicional"), outras gozam de enorme prestígio social, como as carreiras da medicina e do direito.

Os problemas (individuais e coletivos) começam a surgir a partir do momento em que o Ego se identifica fixa e inflexivelmente com uma persona, à qual tende a tornar-se muito unilateral e limitada em relação aos conteúdos que pode abarcar em si e que, por consequência, só pode manter-se coesa relegando os conteúdos incompatíveis à Sombra. No domínio inconsciente (pessoal e coletivo), esses complexos tornam-se autônomos, isto é, adquirem certa independência em relação à consciência egoica e podem agir à revelia desta.

Um exemplo clássico dessa dinâmica pode ser encontrado na história da Alemanha nazista do século XX. A partir do final da I Guerra Mundial, derrotada, a Alemanha começou um processo de centralização e fortalecimento enquanto nação a partir da identificação com valores e ideais heroicos, adotados de forma distorcida e pretensiosa a partir da mitologia, religião e teorias biológicas racistas. Assim, o povo alemão passou a identificar-se fortemente com uma persona coletiva ariana, guerreira, combativa, de pureza genética e espiritual perfeitas que não poderia conviver com seus vizinhos judeus, considerados gananciosos, traidores de Cristo e pertencentes à uma raça inferior (claramente uma projeção sombria, verificada pelo teor exagerado, emocional e irracional desse pensamento). Sozinho, um cidadão alemão talvez pudesse odiar seu vizinho judeu e nele projetar sua Sombra individual, mas sua consciência egoica teria condições de manejar esse preconceito de formas mais sutis e "civilizadas", sem nunca chegar a praticar nenhum ato abertamente violento. Porém, se todas essas projeções individuais se unem em um aglomerado e somam suas forças, não é apenas um complexo que se constela na psique de uma pessoa, mas um poderoso arquétipo que se ativa no inconsciente coletivo do toda a nação e arrasta seus indivíduos numa torrente irresistível de barbárie e destruição.

Quando esse fenômeno ocorre na esfera individual, diz-se que a pessoa está com o ego inflado. Ela identifica-se com uma imagem arquetípica e conteúdos psíquicos do inconsciente coletivo invadem seu ego, o qual inflaciona na tentativa impossível de assimilar todo esse material. O indivíduo perde sua capacidade de discriminação, crê-se todo poderoso e invulnerável, tem delírios de grandeza e uma empolgação exagerada, tanto para o bem (se identificado, por exemplo, com o arquétipo do Salvador) quanto para o mal (se identificada com o arquétipo do Diabo). No primeiro caso, seria um líder religioso perdido em seu papel e crendo ser ele próprio uma espécie de divindade; no segundo, um adolescente rebelde em uma família conservadora que se torna a ovelha negra da família, que só poderia estar "possuído pelo demônio".

Particularmente sujeitos a intrusões de material inconsciente são os egos imaturos e frágeis de pessoas que não dispuseram de condições afetivas e ambientais adequadas para seu desenvolvimento saudável. Esse tipo é mais propenso às chamadas psicoses, transtornos mentais caracterizados pela perda de vínculo com a realidade objetiva (esquizofrenia e demência, por exemplo). Por outro lado, egos muito rígidos e inflexíveis, aparentemente bem ajustados socialmente, podem e quase sempre são afetados pelas neuroses, transtornos caracterizados por tensão e sofrimento psíquico devido à atitudes fixas e unilaterais da consciência (como a ansiedade e a depressão), as quais inviabilizam a fluidez saudável entre as atitudes e funções da consciência de acordo com as demandas variadas do meio. Por exemplo, uma pessoa deprimida permanece congelada em uma atitude introvertida e paralisante, tomada pelas abstrações mentais da função intuitiva dominante, sem conseguir passar a uma atitude extrovertida e prática (função sensação) que seu trabalho exige, passando a sofrer uma série de prejuízos.

Assim, vamos percebendo que o ego trata-se de uma estrutura essencial para a vida civilizada e que os excessos são sempre contraproducentes. O mundo como conhecemos hoje, minimamente funcional e organizado (apesar de suas diversas falhas), não seria possível sem o jogo de personas ao qual o ego recorre, muito embora os recursos dos quais se vale para se adaptar tenham um alto custo, como evidenciam os diversos danos causados pela projeção da sombra, tanto a nível individual quanto coletivo. Por isso, não podemos parar por aí.

Muito diferente da inflação do ego é a expansão da consciência, que constitui o objetivo da análise junguiana e a meta final do desenvolvimento humano - a individuação. Ao invés de ser invadido por conteúdos inconscientes, o ego busca integrá-los aos poucos, crescendo progressivamente ao longo de uma vida inteira e tornando-se cada vez mais completo. Isso é possível à medida que se desloca o centro da consciência do Ego para o Self, este sim, capaz de unir todos os opostos e sintetizar uma unidade transcendente. Esse processo é representado universalmente em mitos encontrados em todas as culturas, obedecendo um modelo básico chamado pelo antropólogo Joseph Campbell de Jornada do Herói.

Nessa estrutura ou monomito, o protagonista (representando o Ego), recebe um chamado especial para um mundo mágico ou espiritual (a psique), muitas vezes sendo desde o nascimento destinado a grandes feitos. Ele parte do mundo comum em uma aventura cheia de desafios, enfrentando vários oponentes pelo caminho (complexos inconscientes), recebendo ajuda e treinamento de um mestre (geralmente, um(a) Velho(a) Sábio(a) ) e, no clímax da história, encontra seu arqui-inimigo (sua Sombra). Nesse ponto, há uma crise, o herói percebe que ainda não tem a força ou habilidade necessária para derrotar seu rival e precisa fazer um sacrifício (descartando a persona com a qual esteve identificado até aqui). Quase morto, vai até o Submundo ou é visitado por um Ser originário de lá (Inconsciente Coletivo), ocasião em que recebe a sabedoria, arma ou ferramenta (uma característica sombria em si próprio, como ódio ou a capacidade de destruição) com a qual é capaz de derrotar o vilão (representação da assimilação dos conteúdos da Sombra). Instaurada a paz no reino, o herói pode enfim casar-se com a princesa (sua contraparte feminina, a Anima) e viver feliz para sempre, coroado como rei (completo, com a inteireza do Self, representada pela coroa). Por mais que variem, os símbolos sempre estarão presentes e terão a função essencial de promover a ponte entre consciência (a ideia representada) e o inconsciente (a imagem que a expressa).

Esse formato é tão universal que pode ser encontrado desde a Antiguidade, nos mitos de Hórus na mitologia egípcia ou Baldur, na mitologia nórdica, até as narrativas contemporâneas de Harry Potter e Star Wars. Essa é a história de todos nós, na jornada da vida, buscando tornarmo-nos a melhor versão de nós mesmos. Vários trilharão o caminho apoiados por uma estrutura religiosa já consolidada, buscando identificar-se, por exemplo, com os ideais de Buda ou Jesus. Outros o farão pela via da Alquimia, sendo instruídos em ordens como a Maçonaria ou a Rosa Cruz. Alguns o farão pela via da análise ou psicoterapia, explorando os complexos em seus sonhos e confrontando a Sombra, mas, invariavelmente, todos passarão pela escola da vida, cuja lição principal sempre será essa: a busca pela plenitude e totalidade. Independentemente da via percorrida ou dos meios adotados, o importante é apropriar-se do protagonismo da própria vida: viver, ao invés de apenas existir; escolher ao invés de ser carregado pelo acaso e pelas circunstâncias; tomar consciência, por mais difícil que seja o processo, ao invés de perder-se em fantasias; refletir e ver significado no universo, ao invés de afogar-se num mar de caos aleatório.

E você, já está vivendo o seu mito?


Hudson de Pádua Lima Psicólogo

CRP 06/165910

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