• Hudson de Pádua Lima

Identidade: da autodescoberta à perda no personagem

Identificar-se com um papel social, com uma personagem fictícia, com uma pessoa ou com uma imagem arquetípica é um processo psicológico natural, inconsciente e involuntário. Vincula-nos a algo até então desconhecido da consciência, mas que possui um grande poder magnético, atraindo-nos para uma autodescoberta.

Nossa identidade pessoal emerge como um amálgama único constituído a partir dessas identificações parciais anteriores (sobretudo com os pais ou referências de cuidado e autoridade). O problema surge quando o Eu fixa-se rigidamente em alguma dessas identificações, podendo levar a neuroses, inflação do ego e, potencialmente, até mesmo a psicoses (como pode ocorrer na identificação com o Self ou figuras divinas). Por mais positivo e construtivo que possa parecer o objeto de identificação, a fixação nele é invariavelmente prejudicial para a adaptação do Ego e o desenvolvimento da personalidade.


Por exemplo, um jovem identificado com o Heroi pode ser um cidadão muito justo e nobre, a serviço da sociedade. Mas como visto em qualquer versão fictícia da Jornada do Heroi, este sempre tem um período de crise, quando questiona o que está fazendo, rebela-se contra seu destino e busca sua verdadeira identidade. Isso porque a persona do Heroi lida muito bem com algumas questões, mas não é adequada para todas as demandas da vida. O Heroi não tem estabilidade, sempre tem demônios e dragões para derrotar, princesas para salvar… ele se define pelo contraste com o Mal, com aquilo que não é ou com aquilo que os outros esperam dele. A felicidade derradeira do heroi só costuma se dar quando ele conclui a jornada e já não é mais heroi: é rei - tem seu reino, sua rainha, seus ideais bem consolidados e seu povo.


Imagine agora a possível catástrofe de se identificar então com uma persona que é amplamente negativa, como a Sombra. É o que acontece com o vilão das histórias, quase sempre alvo de uma injustiça ou ferida incurável, que o leva a reivindicar para si uma personalidade sombria como forma de defesa, ou para esquivar-se da posição de vítima, ou como forma de rebelar-se contra os ideais heróicos que foram incapazes de salvá-lo e protegê-lo. Na prática, uma pessoa identificada com a sombra é alguém propenso a condutas amorais ou imorais, geralmente criminosas.


Além dos casos extremos, ainda temos todas as possibilidades intermediárias, de identificação, por exemplo, com os papéis parentais, com a profissão que se exerce, com o estereótipo estético ao qual se pertence, etc. Qualquer uma dessas é potencialmente danosa. Uma mulher que é e sente apenas enquanto Mãe entra em depressão quando o filho atinge a maturidade e não precisa mais dela, ela perde a si própria e não sabe mais quem é ou qual seu propósito de vida. Um juiz que se identifica com sua profissão facilmente perde seus parâmetros humanos limitados e passa a crer-se Deus. O que fará quando uma doença mostrar-lhe que está longe de ser onipotente?


Assim, temos uma situação ideal na qual se adota uma postura egoica de flexibilidade e coesão relativas. Ao mesmo tempo que mantém-se suficientemente aberto a identificações que propulsionam o desenvolvimento da personalidade, também se preserva um mínimo de coesão e estabilidade internas que viabilizam um senso de continuidade e individualidade. Conhecer suas afinidades, seus limites e seus potenciais é estabelecer uma âncora firme no mar caótico do inconsciente a partir do qual se pode desbravar o desconhecido e continuar crescendo rumo a tornar-se cada vez mais Si Mesmo.


Hudson de Pádua Lima

Psicólogo

CRP 06/165910


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