• Hudson de Pádua Lima

7 coisas que você gostaria de saber antes de começar a terapia

Atualizado: Fev 28


Bom, pra começar, eu penso ser importante esclarecer que, apesar de ter se popularizado dessa maneira, a palavra “terapia” não se refere necessariamente à psicoterapia. Terapia pode fazer referência à qualquer prática destinada ao restabelecimento da saúde e bem estar do paciente, incluindo, mas não se limitando, a sua saúde mental e psíquica. Psicoterapia refere-se especificamente às práticas terapêuticas exercidas por profissionais da Psicologia, a partir de métodos pautados em evidências científicas, sendo mundialmente reconhecida como tratamento de primeira linha para diversos transtornos mentais. Entretanto, no Brasil ainda não há legislação que garanta a exclusividade dos psicólogos no oferecimento deste serviço. Por isso, é essencial que durante sua busca por psicoterapia você se certifique que o profissional da sua escolha é um psicólogo devidamente registrado em um dos Conselhos Regionais de Psicologia. Este cuidado garante uma série de proteções éticas e legais para você e para o profissional que realizará seu atendimento, contribuindo para que o tratamento transcorra da maneira mais adequada e séria possível. Dito isso, partirei da suposição que você, caro leitor, nunca tenha feito psicoterapia antes e não saiba bem o que pode esperar dela. Por isso elaborei essas dicas e informativos com o intuito de elucidar e desmistificar o assunto. Vamos lá?


1. Você não precisa estar doente ou ter algum diagnóstico de transtorno mental para se beneficiar de terapia

Essa ideia vem perdendo força ao longo dos últimos anos, mas ainda persiste no senso comum o pensamento de que só quem é “doido” vai no psicólogo. Ou então, que psicoterapia é um tratamento para pessoas diagnosticadas com transtornos mentais. Embora com certeza ela seja altamente recomendada para o tratamento conjunto de diversos quadros psiquiátricos, qualquer pessoa pode se beneficiar de acompanhamento psicológico. Você pode precisar de ajuda profissional se estiver se sentindo deprimido, angustiado ou ansioso na maior parte dos seus dias; se estiver desmotivado ou tiver perdido o prazer nas atividades que antes gostava de fazer; se tiver alguma questão ou dificuldade na vivência e expressão de sua sexualidade; se achar difícil relacionar-se com outras pessoas; se estiver passando por uma fase de transição ou por uma perda (luto); se apresentar insônia, queda de cabelo, impotência sexual, alergias ou outros sintomas que parecem ter origem emocional e não foram eliminados apenas com tratamento medicamentoso; se tiver que tomar alguma decisão importante ou passar por uma grande mudança; se estiver em transição de carreira; entre outras situações. Por fim, você pode se beneficiar da psicoterapia se estiver “apenas” querendo se conhecer melhor, se aprimorar ou descobrir novos sentidos para sua vida.


2. Psicólogo não é amigo e fazer terapia não é apenas conversar ou receber conselhos

Essa é outra pérola do senso comum: “se for pra conversar, eu converso com amigo” ou alguma coisa parecida. É verdade que na terapia se conversa muito, sendo a fala um dos, senão o principal, instrumento de trabalho do psicoterapeuta. Mas essa “conversa” é muito diferente de quaisquer outras que você tenha no cotidiano, com amigos, parceiros ou conselheiros espirituais. Pra começar, estamos falando de uma escuta qualificada. Por 50 minutos (ou pelo tempo que durar a sessão), o psicólogo estará inteiramente disponível para ouvi-lo, num ambiente preparado e especialmente dedicado para isso, com conforto e sigilo, com garantia de segurança e não-julgamento. Em que outras situações da vida você consegue ter algo parecido com isso? Além disso, por não terem nenhum outro tipo de relação prévia, você não precisa se preocupar com o que o seu psicólogo estará pensando de você, se ele não estará sendo sincero, se está frustrando alguma expectativa dele ou que você parece “louco” falando algumas coisas. Ele estará preparado pra ouvir qualquer coisa que você tenha a dizer, atento para te mostrar e perguntar sobre aspectos que você não tenha considerado ou refletido até então. Poderá até te aconselhar, sim, mas nunca de forma diretiva ou baseada apenas em sua opinião pessoal. Ele sempre terá como compromisso ético e pessoal a sua melhora, atuando como facilitador para suas próprias escolhas, descobertas e ações.


3. Você pode não se dar bem com o primeiro psicólogo que conhecer

Para que tudo aquilo que eu disse no tópico anterior seja verdade, preciso dizer que nem todo psicólogo servirá para ser seu terapeuta – e tá tudo bem. Uma coisa que diferencia a relação psicoterapêutica das demais que você tem em outras áreas vida (familiares, amizades, relacionamentos afetivos, etc.) é que esta você deliberadamente busca, escolhe estar, com quem estar e por quanto tempo. Parece uma ótima notícia para quem tem necessidade de controle, não? Mas não é este o ponto. É a sua autonomia, sua liberdade de escolher e, principalmente, sua possibilidade de recusar. Muitos acham importante que o “santo deve bater” entre terapeuta e paciente desde o primeiro encontro. Isso pode ser uma verdade pra você, mas não se esqueça que a relação entre vocês é inteiramente construída a partir do zero, com colaboração mútua e o interesse ativo das duas partes no processo. Você pode (e deve) perguntar, questionar e sinalizar o que está bom e aquilo que pode ser melhorado, sem medo de críticas ou desaprovação. É uma relação íntima se formando, que deve se pautar em confiança e entrega, mas também sem nunca se esquecer dos limites dentro dos quais ela se insere. Antes de tudo, é uma relação profissional e existem algumas regras, deveres e direitos acordados desde a primeira sessão. E se mesmo assim não estiver fluindo, agradeça e busque outro profissional.


4. E se eu não souber o que falar na sessão?

A insegurança sobre não saber o que falar no atendimento é muito comum, principalmente nas primeiras sessões (quando você está se habituando à terapia e adquirindo confiança no profissional) ou depois delas (quando você pensa que já falou tudo o que precisava). Saiba que nada é irrelevante demais para ser mencionado em terapia e que qualquer assunto que você trouxer poderá ser ponto de partida para reflexões muito proveitosas. A premissa é que você fique confortável para falar do que quiser, mas não se esqueça de que o psicólogo é a segunda metade da relação e ele irá te guiar no processo, fazendo perguntas, pedindo detalhes, exemplos, compartilhando suas impressões, etc. Além disso, lembre-se que o espaço da sessão é inteiramente seu e você pode aproveitá-lo da maneira que achar melhor, como por exemplo mostrando alguma produção artística sua, contando sonhos, mostrando vídeos ou músicas e até mesmo ficando em silêncio na presença do terapeuta. Tudo isso é material de trabalho e ponto de partida para novas conversas e descobertas.


5. Cada profissional é diferente e nenhuma terapia é igual à outra

Todos(as) psicólogos(as) têm em comum o fato de terem passado (pelo menos) 5 anos de formação básica em uma universidade e de estarem submetidos ao mesmo código profissional de ética. E só. Cada psicólogo se diferenciará de outro por uma série de aspectos: histórias e vivências únicas, bagagem cultural, formação (mesmo colegas de curso terão experiências diferentes, a partir das escolhas de estágio, atividades extracurriculares, etc.), especializações, escolha de abordagem teórica (já vou falar disso, no próximo tópico), mas, sobretudo, por ser uma pessoa completamente única. O fator humano é muito presente em nossa profissão, de ambos os lados de seu exercício. Tocamos outras pessoas e somos tocados, fazemos diferença na vida de alguém mas esse alguém também contribui em algum aprendizado para nós, isso é inevitável e muito bem vindo na minha opinião. Abre espaço para o profissional ser autêntico no que faz, expressando sua identidade e estando verdadeiramente presente junto ao paciente. Você precisa sentir que o seu psicoterapeuta está integralmente com você ali na sessão, senão, como se abriria para ele, considerando que já não tem muito acesso à vida pessoal dele? Além disso, você compõe metade da relação. Suas reações, seu posicionamento, suas opiniões importam muito e devem ser ouvidas. Por isso, além de tudo que torna cada psicólogo único, a relação entre vocês também é única.


6. A tal da abordagem teórica

Talvez você já tenha buscado terapia e se deparado com termos como “psicanalista”, “analista do comportamento”, “terapeuta cognitivo comportamental”, “analista junguiano”… e ficado na dúvida de qual escolher. Afinal de contas, são psicólogos, psicoterapeutas ou o quê? Todos esses termos podem se referir à outros profissionais, que não psicólogos, que fizeram formação específica nessas escolas de pensamento e são, de modo geral, terapeutas. Mas psicólogos também podem ter essas formações complementares ou adotarem um referencial teórico específico para pautarem a sua prática clínica, sem necessariamente precisarem de outro curso para isso. E o que isso significa? Uma abordagem teórica nada mais é do que uma lente que o psicoterapeuta usa para enxergar o mundo, o comportamento humano e entender melhor seus pacientes. A Psicologia é uma ciência humana (às vezes considerada ciência da saúde) e por isso tem em seu arcabouço técnico diversas teorias e métodos para explicar e intervir sobre seus objetos de estudo (no caso, a mente, o comportamento, a personalidade, etc.), sendo que estas várias possibilidades coexistem e todas elas têm o seu valor. Cabe ao profissional a liberdade e a escolha de um, ou até mais de um, destes referenciais teóricos para embasar o seu trabalho. Para o paciente, a escolha da abordagem do seu terapeuta implica no estilo de profissional e de tratamento que busca. De modo geral, toda abordagem abrange uma visão de mundo e de ser humano completa, capaz de tratar ou orientar o paciente em quaisquer aspectos de sua vida. Porém, na prática, algumas abordagens podem enfocar mais diretamente alguns aspectos em detrimento de outros, como sintomas, história de vida, fatores inconscientes, contexto sociocultural, comportamentos, sonhos, etc. Procure se informar sobre a abordagem do seu psicólogo no primeiro contato ou na sessão inicial para saber mais.


7. Psicoterapia é um investimento e um processo

Você já deve ter pensado duas vezes antes de começar terapia por pensar que é algo caro. Estamos acostumados a pensar em nossa saúde a partir de um modelo médico, no qual você vai à uma primeira consulta com algumas queixas, recebe a orientação para fazer alguns exames e depois volta para um retorno no qual recebe um diagnóstico e uma prescrição de medicamentos ou tratamento. Assim, mesmo que objetivamente a consulta seja muito cara, você não questiona muito, afinal, é assim que funciona, não? Causa e consequência, doença e tratamento, remédio e cura. Mas em se tratando de saúde mental e psicoterapia não é bem assim que funciona, o processo não costuma ser tão linear. Você pode chegar relatando dificuldades para dormir e acabar descobrindo ser importante cuidar das suas relações familiares e interpessoais. E, sendo assim, é difícil estabelecer prazos, relações causais ou pacotes de tratamento. Algumas abordagens até trabalham dessa maneira, valendo-se de protocolos de atendimento e estabelecimento de metas terapêuticas, mas mesmo nelas às vezes o roteiro precisa ser reavaliado no decorrer do processo. Outra coisa importante de se ter em mente é que você não está pagando apenas pelos 50 minutos da sua sessão. Embora este seja a média de tempo em que você efetivamente passa com seu terapeuta, ele trabalha no seu caso em outros momentos também, como, por exemplo, quando está transcrevendo o registro da sessão, quando leva seu atendimento para supervisão (é comum e recomendável que psicoterapeutas sejam supervisionados por outros profissionais da área, a fim de ter outros pontos de vista sobre o tratamento e manter a qualidade do atendimento) ou quando está estudando sobre temas que você comentou em sessão. Com isso eu quero dizer que psicoterapia é um investimento, tanto financeiro, quanto emocional, mental e pessoal. É preciso comprometer-se com o processo e desejar mudanças para iniciá-lo, estando disposto a reorganizar algumas prioridades e dedicar-se. Uma vez iniciado, você logo notará que a terapia acontece todos os dias da semana, e não apenas naquele em que você efetivamente tem sua sessão. Ela envolve uma tomada de consciência sobre todos os aspectos da sua vida, suas relações, seu ambiente… E é isso que verdadeiramente promove cura ou transformação.


E aí, restou alguma dúvida ou curiosidade sobre psicoterapia? Deu vontade de começar? Comenta aí embaixo e podemos continuar conversando. Até a próxima


Hudson de Pádua Lima

Psicólogo 06/165910

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